Por Marcellus Araújo, Suellem Mendes e Carolina Tulim – especial para a Fósforo Cultural

Nitrominds
Marcellus Araújo – Três integrantes: Lalo (baixo), Edu (bateria) e André (guitarra). Dezesseis anos de estrada. Nove discos. Esses são os números de Nitrominds, a banda paulista que representou o punk rock muito bem no Vaca Amarela. Esta é primeira vez que eles vêm à Goiânia, e fizeram uma performance que não deixou nada a desejar, muito pelo contrário. Não faltou mosh em frente ao palco enquanto os caras mandavam o som. Foram ao todo doze músicas, pois eles puderam dar uma esticada na apresentação, para a sorte dos sedentos por um bom e velho punk que deram as caras no festival. O baixista Lalo, ao se referir à cena punk rock nacional disse que os festivais são parte do circuito nacional da banda, mas que aqui no país “dá pra tocar 30, 40 vezes por ano. Não é muito, mas ainda está bom, dá pra fazer o nosso som, rodar o Brasil tocando”. Ele conta ainda que Nitrominds já fez nove turnês internacionais, além de tocarem no Canadá e Argentina. “Nesses países, principalmente na Europa, a cena punk é bem mais organizada, a gente pode tocar todo dia se quiser, porque tem espaço, tem gente afim. Aqui não é assim, por isso os festivais são tão importantes”, determina.
Mugo
Marcellus Araújo - Em 2008, a goiana Mugo foi a vencedora do festival Tacaboca no CD, e teve a oportunidade de passar uma temporada de gravações no Rocklab, um dos estúdios mais consolidados do cenário independente goiano. A banda, formada por André, que comanda a bateria, pelos guitarristas Lucas e Augusto, pelo baixita Gil e por Pedro, que manda no vocal um som bruto, mostrou neste último dia de Vaca Amarela que não perdeu o tal “sangue nos olhos”. Foram aproximadamente 40 minutos de muito som pesado, metal misturado ao hardcore, que os goianos já estão habituados. A qualidade da banda está em contante mudança, para melhor, e esse show foi o atestado dessa constante no trabalho desses caras. Mugo completou um ano de vida com o primeiro disco lançado “e agora, em dezembro e janeiro a gente vai entrar no processo de gravação do novo disco, então ano que vem tem coisa nova”, afirma Pedro, o vocalista. Por causa disso, o grupo tem tocado um pouco menos. “Como agora estamos preocupados em compor, arranjar as coisas para o novo álbum, a quantidade de shows tem diminuído, por isso a gente está priorizando mais os festivais, dando uma parada para renovar”, completa. Mugo é mais um bom exemplo de como a internet revolucionou o mercado fonográfico. Atualmente eles têm mais de 63 mil contatos no mundo virtual, o que garante relacionamento com pessoas de várias partes do mundo, e que o som deles possa chegar a toda parte. “É a oportunidade que a gente tem de mostrar o nosso trabalho para um cara que está lá na Noruega, por exemplo, e que pode ouvir e gostar. Isso tem uma importância gigante. Numa palavra, é a salvação, da música, de bandas que estão tocando por aí e que podem continuar a fazer música por causa da internet, do que ela possibilita. Hoje já perdemos aquele estigma de que banda, pra ser boa, tem que vender um milhão de discos”, explica Pedro, que não deixou, ao lado dos parceiros, o silêncio dar as caras na Estação Goiânia um segundo sequer.
Baudelaires (PA)
Carolina Tulim – A banda paraense já se despedia do público quando eu finalmente consegui chegar neste sabadão de Vaca Amarela. Nessa condição ingrata de enrolada e atrasada, o que posso reportar a vocês foi a reação positiva que percebi do público presente, que a contragosto sacolejava ao som da já anunciada saidera. Quem achava que o Pará era a terra do brega teve uma deliciosa surpresa.
Johnny Hooker & Candeias Rock City (PE)
Carolina Tulim – “Tudo pelo espetáculo”, deve ter dito pra si mesmo o performático Johnny Hooker ao escolher o figurino para o show que começou minutos antes da meia-noite neste sábado abafado de Vaca Amarela. De casaco de couro, luva em uma das mãos e bota de cano longo, o pernambucano adentrou o palco como uma verdadeira diva, exalando uma postura provocativa e questionadora embalado pela sonoridade oitentista e glamurosa do grupo. Engraçado notar que, paralelamente a essa figura quase que feminina de Hooker, os outros integrantes do grupo fazem o tipo machão, com direito a cigarro no canto da boca, pose e cara de mau. Sem papas na língua, o frontman destilou seu veneno e provocou o público goianiense: “Nós viemos de Candeias Rock City, onde 99% do PIB vem do tráfico e da produçâo de maconha. E aqui, quem já fumou um hoje?”
Johnny Suxx n’ the Fucking Boys (GO)
Carolina Tulim – Tirando inspiração dos grandes clichês da música mundial, Johnny Suxx n’ the Fucking Boys subiu ao palco do Vaca Amarela neste sábado pouco antes da uma hora acompanhado pelo chará pernambucano, Johnny Hooker. Num visual tão extravagante quanto o do homônimo, com uma calça de onça e botas, o frontman fez o show energético e debochado que a maioria dos goianiense já conhece, repleto de riffs manjados, dancinhas marotas e recortes rítmicos. Com heranças musicais que vão da corrosão anárquica dos Stooges à ambiguidade e viadagem debochada do glam rock, a banda deu um salto de produção e excelência no palco nos últimos anos, evolução que foi coroada recentemente com o lançamento de seu segundo álbum, Zebra, selado pela Fósforo em parceria com a Fora do Eixo Discos.
Necropsy Room
Marcellus Araújo - Wesley Amorim, vocalista da banda de death thrash metal Necropsy Room, abriu, com a energia característica que o cara sempre apresenta, a temporada de bandas malvadonas desta nona edição do Vaca Amarela. A banda goiana existe há 12 anos, e é uma das mais respeitadas da vertente metaleira na cena do estado. Após o show, ele analisou a importância de os festivais independentes incluirem bandas das mais variadas vertentes do metal na programação. “Sempre agregam outros estilos junto com o metal, mas é importte que a gente possa continuar tocando, não só o Necropsy. Tem muita gente fazendo um som pesado como o nosso, e eles precisam mostrar o que sabem.” A banda lançará, segundo os integrantes, um novo disco em 2011, que já terá a participação do novo baterista, Pedro Henrique, que também toca no Mechanics, outra tradicional banda da terra goiana. Para Wesley “tocar em festivais é fruto do reconhecimento do nosso trabalho”. Eles fazem atualmente quatro shows por mês, nos últimos cinco anos. E a partir de outubro a banda começará a organizar turnê de shows que incluirá Estados Unidos e alguns países da Europa, mas nada ainda muito definido.
Hellbenders

Marcellus Araújo – O quarteto formado por Rodrigo Lopes (bateria), Diogo Fleury (guitarra e vocal), Braz Torres (guitarra e vocal) e Vitor Noah (baixo), é a prova de que não é preciso anos de experiência para se fazer rock do bom, de que talento é o tipo da coisa que não se adquire, se nasce com. Quando Hellbendeer foi formada, em 2007, os garotos tinham apenas 15 anos de idade cada, exceto Rodrigo , um ano mais velho que o resto do grupo. Agora, com três anos de vida, a banda conta com cinco músicas gravadas profissionalmente, além de outras 18, que estão prontas, aguardando a hora de figurarem no primeiro disco físico da banda. “Conversamos com o Miranda, que será nosso produtor, estamos acertando os últimos detalhes, para lançar o disco em 2011”, adianta Braz Torres. Os garotos, que trabalham em parceria com a Monstro Discos, se apresentaram no Vaca Amarela por aproximadamente 40 minutos, tempo que deveria ser bem menor. Mas eles se empolgaram e deram um pouco mais do stoner rock bem tocado que sabem fazer para quem assistia. Não faltou espectador eufórico com as guitarras pulsantes de Braz e Diogo, que estavam em harmonia aguda com a bateria rápida e bem ensaiada de Rodrigo. Além da contribuição de Vitor, o baixista que sabe entrar na hora certa nos arranjos das músicas.
Gramofocas (DF)
Suellem Mendes – Já na primeira música, a banda Gramofocas, de Brasília, fez todo mundo vibrar com seu punk rock. Influenciados por bandas clássicas do gênero e que fizeram sucesso na década de 1970, como Ramones e Toy Dolls, Pedro (guitarra e vocal), Paulo (baixo e vocal) e Vitor Ramos (bateria) já se apresentaram muitas vezes em Goiânia, mas esta é a primeira vez que participam do Vaca Amarela. “O festival é grande e está demais, com ótima estrutura”, frisaram.
Antes do Fim
Suellem Mendes – Mesmo sendo a primeira banda a se apresentar na segunda noite do Festival Vaca Amarela, a Antes do Fim teve platéia cativa. Muitos acompanharam o vocalista Lucas nas canções que mesclam um som pesado, mas harmônico, marcado pela levada forte da bateria e o reforço frenético das guitarras. Veteranos em outros eventos realizados pela Fósforo Cultural, o grupo é estreante no Vaca. Além de Lucas, a Antes do Fim é formada por Thyayrô (guitarra), Tulio (guitarra), Potter (bateria) e Juninho (baixo e vocal). Com um som experimental e “sem precedentes”, como eles mesmo definem, a banda já está na estrada há 3 anos, mas há 2 meses está com uma nova formação e uma proposta diferente. “Só tocamos aquilo que queremos. Usamos as influências de cada um para fazer um som também influente”, completa Lucas. Para eles, é uma honra tocar em um Festival desta grandeza. “Aqui encontramos grandes nomes da cena musical, além de ter à disposição uma ótima estrutura e o apoio excelente da produção, tudo bem elaborado”, elogiaram.
Black Queen

Suellem Mendes – Da reunião de quatro amigos e seus experimentos musicais em uma garagem, nasceu a banda Black Queen, terceira a se apresentar no Festival. Formada por Pietro (guitarra e vocal), Yago (guitarra), Dinho (baixo) e Hans (bateria), o grupo está na estrada há um ano e também é estreante no Vaca Amarela. Com influências de Motorhead, Bellrays, Turbonegro, MCS, Stooges e Ultravespas, o Black Queen se prepara para a gravação de um EP. “Vem surpresa por aí”, completa Pietro. Para eles, os pontos fortes da nona edição do Vaca são a estrutura e a organização, “tudo no tempo certo”.
Ultravespa
Suellem Mendes - Incendiar o palco Harmonia Musical não foi nada difícil para a banda Ultravespa. Com influências das músicas dos anos 1950 e 1960, Dinho (guitarra), Tiago (bateria) e Bruno (baixo e vocal), trouxerem um rock dançante e animaram a noite. “As influências são antigas, mas o som é totalmente novo”, explica Dinho. Com três anos de carreira (oito meses com a formação recente), já é a segunda vez que a banda se apresenta no Vaca Amarela.
Eddy Star (BA)
Marcellus Araújo - O Vaca Amarela deste ano trouxe um ilustre visitante, que não pisava em chão goiano há 40 anos. Edy Star, mítico baiano que já cantou e tocou ao lado do conterrâneo Raul Seixas, precedeu o show da banda goiana Umbando. Ele se mostrou um verdadeiro entusiasta dos festivais independentes e ressaltou que “iniciativas como essa aqui, e outras que acontecem em Goiânia e Brasil afora, são fantásticas. Tem muita gente fazendo música inventiva, talentos jovens, interessados em passar algum coisa boa, música de verdade. É isso que a gente precisa”. Edy, que sempre assumiu publicamente a orientação sexual homossexual, desde os difíceis anos 1970, em plena Ditadura Militar, adiantou que fará uma temporada de shows entitulada “Eu Nunca Estive no Armário”, no qual ele fará um apanhado das músicas de carreira, e que serve também para retomar a história desse militante musical. Edy passou muitos anos trabalhando na Espanha, e agora, a convites, resolveu voltar à pátria nem tão amada assim.
Umbando
Carolina Tulim – O Umbando é uma banda que nunca me decepciona nas apresentações ao vivo. Não foi diferente nesta sexta-feira de Vaca Amarela: a banda fez um daqueles shows em que até os mais durões se renderam ao balanço do samba e baião, além de outras vertentes musicais mais regionais como o boi, a catira e o xote propostas pelo grupo. Há quase uma década na estrada, o grupo sabe a medida exata para agradar o público: solos bem executados de flauta, um balanço completamente irresistível e a química que extrapola a formação musical de banda e transforma o Umbando numa grande família.
TNY (GO)
Três palavras sobre o show do TNY no Vaca Amarela 2010: profissionalismo e feeling musical. Nesta noite abafada de sexta-feira, o bom e velho rock’ n roll aqueceu o já incendiado pavilhão da Estação Goiânia para uma verdadeira aula do gênero com uma das bandas que mais entendem do assunto na Capital do Rock no Centro-Oeste. Também pudera: com 18 anos de estrada, a antiga The Not Yet Famous Blues Band é referência em matéria de fazer boas misturas pautadas no blues rock. Na apresentação de agora a pouco, a banda mostrou um show enxuto, em função do tempo apertado do festival, mas não decepcionou os fãs mais fanáticos da boa música instrumertal com seu repertório sempre rico e redondinho.
Terra Celta

Marcellus Araújo – Há mais de quatro anos, a proposta inicial da banda paranaense era tocar música celta. Acontece que a miscigenação infectou o grupo. Hoje, eles misturam música européia, israelense, oriental, popular brasileira, e até choro, de acordo com Eduardo Brancalion, que toca guitarra e violão. “A música celta não é mais o que fazemos. É claro que ela está muito presente no nosso som, mas a mistura é inevitável”, avalia. Com tantas referências, vindas de tantos cantos do mundo, o que melhor se encaixa para definir a banda seria wold music, ou, nas palavras de Brancalion, “uma espécie de world pop, porque o que a gente quer é fazer a galera dançar mesmo”. Nada há de parecido com Terra Celta no Brasil. O que mais se aproxima dessa harmonia nas misturas, poderia ser Gogol Bordello, a banda novaiorquina de gypsy punk mais “multimaluca” dos últimos tempos.
La Cartelera (ARG)

Carolina Tulim - Não sei se é só comigo, mas quase todas as bandas que eu escuto e cantam em espanhol me soam um pouco novela mexicana. Talvez seja o clima melodramático que o próprio idioma carrega, ou talvez o modo como as frases soam nesta língua que parece sempre uma cantada barata, o fato é que nesta sexta uma exceção subiu ao palco do Vaca Amarela. La Cartelera, conhece? Uma banda argentina que mistura ritmos populares latino-americanos como reggae, ska, cumbia, cuarteto, wawancó e sambareggae e que fez caírem por terra todos os meus preconceitos sonoros com os hermanos argentinos, Essa aceitação já havia se iniciado com os Los Cocineros, e se solidifica agora com um show carregado de metais valorosos e uma levada que fez dançar os duros roqueiros goianienses. Com mais de uma década juntos, não é de se admirar que fizessem esta apresentação interessante e rica que acabamos de ver por aqui, mas o que mais me impressionou foi a facilidade que o grupo tem de transitar por diversas referências e estilos musicais sem perder o fio condutor que segura tudo: a festividade e a irreverência com que, palpitantes, oferecem sua música e sua performance ao público da cidade.
Mersaut e a Máquina de escrever
Marcellus Araújo – Em aproximadamente 25 minutos de show, Mersault e a Máquina de Escrever mostrou um pouco do som que a cena roqueira de Goiânia conhece há dez anos. Quem comandou a performance foi Alessandro Denner, o vocalista fundador da banda, que após três anos afastado, voltou a integrar o grupo. Bem mais animado, Alessando, que apresentou a mesma energia que costumava levar para os shows, afirmou que “agora, depois desse tempo fora, eu voltei pra ficar. A gente espera que o pessoal que acompanha a banda goste, e eu estou feliz com a volta”. Se a atenção do público servir de termômetro, é possível afirmar que a resposta de quem acabou de conferir os caras no palco foi positiva.
Pata de Elefante
Marcellus Araújo - Considerada a melhor banda de rock instrumental do país, Pata de Elefante deu uma intensa colaboração para o Vaca Amarela. O trio gaúcho é formado por Gustavo Telles (bateria), Gabriel Guedes (guitarra e baixo) e Daniel Mossmann (guitarra e baixo). Eles estão junto há oito anos, e são, ao lado de Macaco Bong, uma das mais importantes bandas do estilo atuantes no Brasil. Daniel, que esta noite comandou a guitarra, a voz da banda, analisa o cenário do rock instrumental nacional. “Quando a gente começou, quase não havia banda instrumental do país. As pessoas estão perdendo o preconceito com as bandas desse estilo, e a gente tem hoje mais oportunidade pra tocar”. A banda lançou os dois primeiros discos pela Monstro Discos, de Goiânia. Agora trabalham em parceria com a Trama. Daniel conta que agora, com o show do Vaca Amarela deste ano, é a sétima vez que o grupo toca na capital goiana.
Fusile (MG)
Carolina Tulim – A banda tem menos de um ano, mas nem parece. A sintonia que tomou conta do palco do Vaca Amarela na noite desta sexta era de velhos conhecidos, que mal precisaram se olhar para que o som reproduzisse a pegada sonora firme e a coerência musical que embala os mineiros do Fusile, de Belo Horizonte (MG). Com forte presença de metais, uma guitarra apressada, um baixo bem marcado e uma bateria firme, a banda acaba de lançar seu primeiro EP, Coconut Revolution, mas já prepara outro compacto com previsão de lançamento para dezembro deste ano. Dançante e energético, a sonoridade do grupo caminha entre o rock, o ska, o swing e os ritmos latinos, aliando uma postura política ativista à ao vocal rasgado de seu frontman. E que shortinho!