Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado?

Texto da última revista Zelo.

Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado?

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e agora é atitude gostar de coisas deliberadamente horríveis como novelas e reality shows?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e essa Adele se transformou em um belo estorvo sacal?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e gostar de vinhos e boa gastronomia ganhou a pecha de “coisa de gente metida”?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e o Atlético daqui a pouco terá mais torcida que o Vila Nova e mais relevância nacional que o Goiás?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e agora se você não corre maratonas como hobby e atividade física todos olham para você como se fosse um extraterrestre?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e agora é mais aceitável ser ladrão do que fumante?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e os coxinhas fãs de Coldplay ganharam o mundo de assalto?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e qualquer tentativa de fazer algo diferente já é logo definido como “coisa de hipster”?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e o mundo ficou dividido entre hipsters e coxinhas?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e optar por não ter celular é praticamente assumir que precisa de ajuda psiquiátrica?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e a tríade bancos, empreiteiras e imobiliárias ganharam o direito de passar por cima de qualquer lei?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e a Bandeirantes deixou de ser o canal do esporte?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e canal de música não toca música, canal de esporte só tem conversa e canal de filme só passa show?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e qualquer zé mané da esquina acha que tem talento para fazer show de humor stand up?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e essa modinha de stand up se espalhou feito metástase pelo País?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e as pessoas se orgulham de ter mais horas de vídeos pornôs na internet do que de leitura de livros?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e Chico Buarque virou essa unanimidade opressora?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e afirmar que Johnny Deep é só um ator comum se tornou crime de lesa pátria?

- Quando as coisas começaram a pegar esse caminho errado e xigar muito no Twitter ganhou status profissional?

PS: O tempo voa e já são cinco anos de Revista Zelo. Muito orgulho de participar dessa bela história! Parabéns, Rosângela! Parabéns, Ângela!

pablokossa@bol.com.br / www.fosforocultural.com.br/pablokossa

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Então é Natal (e eu não estou nem aí)

Texto da semana passado que publiquei no Diário da Manhã

Então é Natal (e eu não estou nem aí)

Existe um descompasso claro entre minha idade mental e a idade física. Nunca tive dúvidas disso. Acho que tenho a mentalidade de alguém de 6 anos, o corpinho de 30 e poucos e a disposição de 80. Tudo incongruente, tudo que não se alinha direito. Tenho o péssimo hábito de agir de maneira infantil em momentos inoportunos. E como um senil em outros também não menos inoportunos. Não é premeditado, não fico horas pensando no que dizer para que em tal circunstância eu possa soar anacrônico. As coisas simplesmente saem. Até por que, se eu pensasse cinco segundos, não sairia por aí falando tanta bobagem como faço. A real é que quando vou perceber, já adotei posições que não seriam as mais usuais para um cara de minha idade. E aí, meu brother, no meio do caminho, não dá mais para reconsiderar. Se existe algo que aprendi nos anos 80 é que retroceder nunca, render-se jamais!

No Natal, costumo ficar uma pessoa bem chata. Na verdade, mais chata que o normal. Ou seja, às raias do insuportável. Rabugento, encrenqueiro, sem ânimo para nada. A alegria desmedida das pessoas me entedia. A caridade de final de ano é tão falsa quanto elogios da Hebe Camargo. Todo mundo é bondoso, feliz, contente. Todas desavenças ficaram para trás, todas tretas vão para debaixo do tapete, tudo fica meio pasteurizado. E eu, irascível, vou para meu canto tentar ficar na minha e confabular contra o mundo.

É tudo muito plástico, com muitos conservantes. As comidas têm sempre o mesmo sabor. As conversas gerais, o mesmo teor. E minhas preocupações são sempre as mais triviais possíveis: será que a cerveja vai congelar? Será que esse ano o Goiás vai melhorar? Será que esse ano o Neil Young virá ao Brasil? Ok, sei que sou raso e não me orgulho disso, certo?

Mas entendo que o Natal é um rito fundamental para as culturas calcadas no cristianismo. É quando as pessoas se esforçam para ser alguém melhor, tentam corrigir os vacilos que cometeram ao longo do ano, tentam ficar de consciência mais tranquila por terem sido tão insensíveis nos demais dias do ano. Não julgo, não condeno. Só observo com curiosidade. A perspectiva de redenção, nem que seja no fim do jogo, é elemento central da cultura cristã. E Dimas está aí justamente para comprovar o que eu penso.

Pela boa convivência social, acabo encarando algumas barcas de Natal. A que mais me envergonho é de ter que passar naquela Praça Tamandaré, que fica uma péssima mistura de Las Vegas com boate gay. Se pintar um cassino, vira Vegas; se tocar Lady Gaga, vira point LGBT. Decoração de péssimo gosto! E o que mais deprime é que as pessoas gostam, frequentam, levam os parentes e lotam o lugar. É muita vergonha alheia!

O meu único consolo é que só terei que encarar tal momento constrangedor novamente só daqui um ano. E meu desespero é justamente esse: a certeza que ano que vem tem de novo.

pablokossa@bol.com.br

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O grande equívoco

Artigo publicado hoje no Diário da Manhã.

O grande equívoco

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Tente repassar mentalmente em, hum…, 15 segundos as grandes burradas da humanidade. Mais de uma dúzia de fatos foram buscados na sua memória, não? Bomba atômica, as cruzadas, AI-5, título do Corinthians… Só desgraceira! Faça o mesmo processo com a perspectiva pessoal no mesmo tempo proposto. Outra boa quantidade de fatos foram puxados da sua cabeça, certo? A batida do carro, seu casamento frustrado, o travesti que você ebriamente abordou achando que era uma princesa, o dia em que você bebeu demais na confraternização de final de ano da empresa…

E você sabe o que todos esses acontecimentos de relevância pública ou privada têm em comum? Nós costumamos responsabilizar um único dado como fato gerador de toda celeuma. O que nesse artigo eu batizo de “o grande equívoco”. Aquele estopim que, depois de ter rolado, a treta não tem mais volta. Contudo, sinto lhe informar que o grande equívoco, na verdade, não existe. É uma construção de nossa cabeça para tentarmos achar a razão de termos nos dado tão mal naquela situação.

Na real, o grande equívoco se constitui a partir de uma série de pequenos erros que, quando somados, se transformam no problema maior que entra para a história, seja da humanidade ou de nossas vidas particulares. Os pequenos fatos, erros menores e desatenções mil… Quando tudo se junta, meu amigo, sai da frente que a coisa ficou séria.

Por exemplo, aquele dia que você bateu o carro por que um vagabundo lhe fechou, não é responsabilidade única do vagabundo que lhe fechou. Se você não tivesse apressado para diminuir o atraso, se seu chefe não tivesse lhe enchido a cabeça cobrando aquele maldito relatório de produtividade, se a pista não tivesse molhada com a garoa que caía o dia inteiro, se você não tivesse olhado para o rádio momentos antes para trocar de emissora, se você… Quando tudo isso se soma, acrescido da fechada, BUM!, você bateu o carro. E considera o grande equívoco a imprudência daquele motorista. A questão é que se não existisse essa série de pequenos desvios de atenção anteriores, você conseguiria facilmente escapar da fechada e seguir sua rota. Mas não foi isso que aconteceu.

Entretanto, gostamos das simplificações. Gostamos da noção de heróis e vilões, quando a responsabilidade por nos salvar ou nos detonar tem nome, sobrenome, RG e CPF. Fica mais fácil glorificar e execrar. Só que esse simplismo não existe de fato na vida real. A rede de acontecimentos é complexa, fluída e extremamente variável. Tudo interfere para que dado resultado se concretize. Cada detalhe oferece sua palhinha de contribuição. Só que é de uma canseira sem fim ficar procurando sentido nessa rede complexa. É mais fácil eleger o responsável pelo sucesso e elevar ao céu ou execrar eternamente o suposto algoz. E a vida vai seguindo.

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E a conta vai ser cara…

Artigo publicado no Diário da Manhã de hoje

E a conta vai ser cara…

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

O que todos já sabíamos, mais uma vez se comprova: a Copa do Mundo e as Olimpíadas feitas em terra brasilis custará muito mais caro que o originalmente previsto. No caso do maior espetáculo do futebol, marcado para 2014, o valor a ser desembolsado hoje gira em torno de US$ 40 bilhões. Sempre é bom repetir: 40 bilhões de dólares. Só para dar uma dimensão classe média do valor, isso equivale a 350.930 belos apartamentos de R$ 200 mil cada. Não seria melhor distribuir esses apês e dar um baita up na qualidade de vida de mais de 350 mil famílias brasileiras?

E o pior de tudo é que não é a primeira vez que isso acontece. É mais do mesmo. História repetida. Você se lembra do Panamericano de 2007 no Rio de Janeiro? Pois é, esse evento estourou somente em 10 vezes o originalmente previsto como orçamento. Vou repetir para você se indignar bastante: 10 vezes. Imagine você se atingirmos esse patamar na Copa do Mundo. Faremos uma bela festa e teremos uma ressaca gigante para pagar essa conta após o apito do juiz determinando fim de jogo na final da Copa. Outra comparação: com o valor atualmente previsto do torneio, daria para comprar quase 39 milhões de Ipads. Não seria melhor distribuir e fazer uma inclusão digital de verdade em todas escolas e universidades do Brasil?

Em matéria recente publicada no portal Uol, averiguou-se que o valor de US$ 40 bi é maior que o que foi gasto nas três últimas edições da Copa. Japão/Coreia, Alemanha e África do Sul desembolsaram juntos o montante de US$ 35 bi para organizar o torneio. Em toda história da Copa do Mundo, foram gastos US$ 75 bi em valores reajustados. Só a Copa do Brasil vai ser responsável por mais da metade de todas edições. Vai que não repitamos o escárnio do Pan 2007, mas que dobremos o atualmente estimado. Se chegarmos aos US$ 80 bi, teremos feito uma Copa do Mundo mais cara do que todas as edições anteriores somadas. Dá para acreditar? Pois é… Na verdade, é de chorar.

Já que os lucros da Copa do Mundo são privados, por que os gastos são socializados? E já que existe grana para as obras de infraestrutura que inegavelmente vão melhorar a qualidade de vida da população brasileira e são perenes, por que esperamos a Copa vir para cá para fazermos isso? Por que isso não foi feito antes e já pudéssemos estar desfrutando desses benefícios? Boas questões que ficam.

Por fim, preciso dizer que não sou contra a realização da Copa no Brasil. Acho que os benefícios vêm de verdade. E antes tarde do que mais tarde ainda. O que não dá para aceitar é o excesso de grana gasto de forma imprudente. Se outros conseguem fazer de forma mais eficiete, por que nós não damos conta? A resposta é fácil: incompetência e roubalheira. Cristalino e simples assim.

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Minha preferência

Texto que publiquei na última edição da Revista Zelo.

Minha preferência

Pablo Kossa

Minha preferência é por quem vive de verdade. Se arrisca, toma umas na cara, aprende, se levanta, persiste e vence. Não tem medo de ousar, mesmo que essa ousadia custe caro no final. Olha no olho quando conversa. Fala alto, se embebeda, diz o que não deveria, mas diz a verdade. Quando diz bobagem, tem a humildade de reconhecer que pisou na bola e pede desculpas. Mas também tem a coragem de reiterar algo dito e que incomodou quando tem convicção sobre o que está sendo tratado.

Minha preferência é por quem gosta de experimentar, mesmo que seja para dizer que não gostou. A vida só tem sentido se experimentarmos ao máximo. Que não experimenta, não vive. E não tem a menor graça estar ao lado de quem não vive. Quem não experimenta não tem o que dizer, o que pensar, o que compartilhar. Faltam-lhe elementos que só são adquiridos, veja só você, com a experiência.

Minha preferência é por quem já tomou um belo de um pé na bunda da pessoa amada. Por quem já foi chifrado e ficou sabendo. Quanto mais dolorido, maior o aprendizado. Nada dignifica mais o ser humano que a decepção amorosa. Nada forma mais caráter que a desilusão do coração. Gente moldada na dor do amor é mais interessante, é mais calejada. E tem noção da ebriedade contínua que é o comportamento humano quando estamos falando de sentimento e, em especial, de sexo.

Minha preferência é por quem tem preferências. Toma partido, tem lado, se posiciona. Gente em cima do muro é pior que comida sem tempero. É gente insossa. Quem tem lado, tem caráter. Sabe dos riscos de se assumir publicamente e para esse ônus. Quando se publiciza um lado, automaticamente desagradamos o outro. Normal. Faz parte do processo. É impossível agradar a todos e só os estúpidos têm essa ambição.

Minha preferência é por quem não tem vergonha de reconsiderar. Nada é mais bonito no ser humano do que mudar de opinião. Quando entramos em contato com novos elementos, aprendemos mais, vivemos mais, é impossível ficar com a mesma visão de mundo. Por isso é possível perceber que estávamos errados e adotarmos uma nova postura frente ao mundo. E, se a pessoa percebe que o novo posicionamento é equivocado, volta atrás novamente. Voltar atrás tentando acertar e melhorar nunca será uma vergonha.

É esse tipo de gente que quero ter a meu lado. É esse tipo de gente que deixa a vida mais legal e engrandece os escolhidos para compartilhar momentos de amizade. É esse tipo de gente faz a vida valer a pena.

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Eu é que não vou ficar esperando

Artigo que publiquie no Diário da Manhã de hoje.

Eu é que não vou ficar esperando

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Percebo que o mundo está em um caminho muito errado quando entro nas redes sociais. O comodismo de uma geração pode ser observado no Facebook. Uma bando de gente bundona esperando o próximo videozinho de macaco andando de bicicleta para curtir e repassar adiante. Mas que bela meta de vida! A grande ambição é trollar a próxima subcelebridade e ganhar alguns seguidores a mais no Twitter. É lamentável! Aquele veneninho escorrendo no canto da boca louco para receber aplausos. Ah, mundo moderno, desse mal aí eu estou fora! Não vou ficar esperando a próxima ondinha para sair curtindo. A rua sempre foi mais legal. E na rua não é nada disso não.

A vida é aquilo que acontece fora da tela enquanto você pensa no próximo tuíte para posar de gostoso. Como dizem por lá, uma verdade: se tudo der muito certo, você terá seus 15 minutos de fama na web. E lá vai o próximo candidato a webhit do verão. Ser um Dilmaboy é seu futuro. Para quem não tem nada a perder, até que é uma boa ambição. O triste é perceber que esse objetivo para lá de meia boca convence tanta gente por aí. E aquela velha máxima cada vez faz mais sentido: cada um sonha com aquilo que pode sonhar. E o mundo vai girando…

As grandes ambições transformadoras da realidade foram reduzidas ao sonho de ter um tablet da maçãzinha. E o branco, por favor, que é mais hypado. E todos com o bonézinho da marca famosa e jaqueta de três listras. O patético da humanidade sempre nos surpreenderá. Disso nunca tive dúvidas. O problema é que agora ele chega mais rápido com as facilidades do mundo virtual. E acaba de chegar um link com o mais novo rap-indie-sambinha sensação paulistana. Se não existe amor em SP, está faltando paciência aqui em Goiás. Com uma prudência maior que a média, prefiro não clicar. Deixe o tempo me mostrar se daqui 10 anos essa música do link ainda será pertinente. Enquanto você fica esperando esse link, vou ali ouvir meu Miles Davis. Um museu de grandes novidades.

Vamos supor que eu viva além do que meus péssimos hábitos limitam e eu chegue a heróica marca dos 100 anos. Até o dia do último suspiro, não existe tempo hábil para ouvir todas as músicas que realmente me interessam. Não terei tempo de ler todos clássicos da literatura mundial que me interessam. Não será possível experimentar todos os sabores que me interessam. É por isso que não vou ficar esperando o próximo link descolado do Facebook para replicar. O tempo é escasso. A vida urge. Perder tempo é perder vida. E se é para perder vida, que façamos isso com alguma classe. Não com um bebê chorando por causa de uma formiguinha.

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Quem tem foco tem tudo

Artigo que publiquei na última quarta-feira no Diário da Manhã.

Quem tem foco tem tudo

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Sou um disperso por natureza. Faço um milhão de coisas ao mesmo tempo. Tudo meia boca, mas faço. Não sou especialista em nada. Sei um pouco de tudo, não passo vergonha em nenhum assunto, mas me faltam elementos para encarar um debate com profundidade com um especialista em qualquer área que seja. De futebol a novas mídias, de situação da Palestina a mudanças climáticas. Sei dar um palpite com algum embasamento sobre tudo, mas não sei nada a fundo. Um generalista nato, é o que sou. E não tenho nenhum orgulho disso.

Na verdade, admiro de todo coração quem consegue priorizar um assunto com afinco até dominá-lo por completo. Meu coração nunca admitiu exclusividade em nada. O novo me interessa, me seduz, me atrai. E quando começo a saber demais de um assunto, naturalmente começo a achar aquilo mais chato e mais chato e mais chato. Preciso de novidade para me manter interessado. E essa característica, é obvio, me direciona à dispersão.

Tenho um monte de discos em casa. Nem sei o número, mas no patamar dos milhares. Tem de bossa nova a death metal. Se fosse uma coleção direcionada a um único estilo, por exemplo, jazz, eu seria um dos maiores entendedores de jazz de Goiás. Mas não. Sei um pouquinho de jazz, blues, punk rock, classic rock, MPB, samba… A promiscuidade intelectual é uma característica muito prazerosa e da qual não abro mão.

O foco é uma questão que atualmente está muito valorizada. Gente como eu, que tem interesses múltiplos, é mais comum que muriçoca na beira de córrego. Cada munguba que você balança, cai uma dúzia. O especialista não. Em tempos de dispersão e pulverização da informação, um especialista de verdade vale ouro. Alguém que fale com propriedade sobre aquele assunto como poucos no mundo são donos de salários invejáveis.

Eu, só para variar, fui pelo lado errado da vida: o mais difícil e aquele que paga pior. Típico. Mas aquele fator subjetivo, que alguns chamam de felicidade, não existe no conhecimento específico para mim. Meu prazer está no quanto mais plural, diverso e farto, melhor. Não é o hype profissional? Não tenho o que fazer. Foi o caminho que escolhi, equivocado seja esse ou não. Não adianta fazer esforço contra aquilo que somos, contra as características que são inerentes ao nosso próprio existir.

O fato é que cada vez que vejo algum especialista dando uma entrevista com aquela riqueza de dados, informações não óbvias, análises que apontam para fora do senso comum, me dá uma baita inveja deles. Mesmo sabendo que nunca sequer passou pela minha cabeça me especializar ao extremo em nada. Quando os vejo fazendo a diferença naquilo que se propuseram, reafirmo internamente o quão gente assim é para que o mundo seja um lugar melhor.

pablokossa@bol.com.br / www.fosforocultural.com.br/pablokossa

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O que é a música hoje?

Texto que publiquei no Diário da Manhã de hoje.

O que é a música hoje?

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Que estamos vivendo um novo mundo, ninguém tem dúvidas. Cada vez mais as distâncias são menores e uma enxurrada de informação nos atinge via internet, celular, televisão, rádio, jornal e revistas. Todos nossos poros vão recebendo essa carga intensa, chegando a um estágio de quase overdose informacional que todos atualmente vivemos. Nesse cenário caótico, confuso e, para nós que somos uma geração de transição entre modelos distintos, aterrorizante, o que é a música hoje?

Essa pergunta vem incomodando toda a indústria musical que viveu seu apogeu no Brasil na década de 1990. Naquele período, com a estabilização da moeda por meio do Plano Real e o aumento do poder de consumo de uma faixa social historicamente excluída, foi possível que fenômenos da música popular vinculados ao axé, sertanejo e pagode vendessem CDs a dar com pau. Até o pop rock brasileiro e a então combalida MPB conseguiram alguns triunfos numéricos nesse período. Hoje, o cenário é completamente diferente. Os números que hoje são exaltados pela indústria, há 15 anos eram considerados somente modestos. Welcome to the new world, baby!

Com a popularização da internet e a febre do download ilegal, as classes mais abastadas não compram mais discos. Por outro lado, o consumo popular migrou das obras originais para as cópias piratas, vendidas a preços muito mais convidativos em qualquer esquina da cidade. Ninguém duvida de que o interesse por música continua o mesmo, talvez até maior – se ouve música hoje como sempre se ouviu. O que mudou foi a maneira como as pessoas têm acesso a esse som. Essa mudança na forma de, digamos, “aquisição”, naturalmente altera também a forma de consumo pelo fã.

Como antes o acesso a um disco era caro e difícil, aquela obra era degustada faixa a faixa. Todo o encarte era lido, a pessoa ouvia o disco várias vezes, prestava atenção em cada detalhe. Primeiro por que tinha investido uma grana ali e queria ter a sensação de que aquele valor tinha sido recompensado. Em segundo lugar, por que não tinha tanta opção assim e era meio que obrigado a ouvir novamente aquele som. Hoje, com dois cliques qualquer moleque tem qualquer som já produzido no mundo. Com dois cliques ele tem a discografia completa das maiores bandas da história da música. E o que vem fácil, naturalmente, não recebe o mesmo valor do que vem difícil. Se antes o cara investia uma grana e um trampo descomunal para fechar a discografia do Led Zeppelin, por exemplo, hoje ele gasta alguns minutos. Logo, antes ele iria ouvir os discos do Led até furar, Hoje, ele pode simplesmente deixar os arquivos no HD para ouvir depois – talvez até nunca, inclusive. Então a música deixou de ser o centro das atenções e passou a ser o pano de fundo, pois hoje as pessoas mexem no computador ouvindo música, escrevem ouvindo música, trabalham ouvindo música mas não efetivamente param tudo para ouvir música.

Esse é o nome mundo e brigar com isso é tão eficaz quanto enxugar gelo na Praça Cívica às três horas da tarde. Mas se eles vão nesse caminho, eu, é claro, nado contra a corrente só para exercitar. Todo final de semana, escolho cuidadosamente um vinil, abro um vinho e vou ouvir o disco. Olhando o encarte grandão, ouvindo a música, me atentando aos detalhes. Esse prazer a tecnologia não tira de mim. E que eles fiquem com os MP3s deles para lá!

pablokossa@bol.com.br

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O aspecto humano da celebridade

Texto que publiquei hoje no Diário da Manhã.

O aspecto humano da celebridade

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Depois da loucura que foi o final de semana com a décima edição do festival Vaca Amarela (que foi lindo, muito obrigado a todos que foram!), fui me atualizar com as notícias na internet. Fiquei sabendo então que a presidenta (como diz meu jornalista esportivo favorito, Juca Kfouri, se ela gosta e a gramática permite, por que não?) Dilma Roussef deu uma entrevista de caráter pessoal, íntimo, ao Fantástico. Na verdade, mesmo se não fosse o Vaca, eu só ficaria sabendo disso pela internet, pois acho assistir Fantástico o fim da picada e o ápice da depressão dominical. E que o bondoso senhor Deus abençoe o Youtube.

A repórter Patrícia Poeta perguntou sobre a rotina da mulher mais poderosa do Brasil, pratos preferidos, como ela se veste, como é seu cotidiano com a sequência de responsabilidades que ela tem. Com esse enfoque, me lembrei do quanto gosto desse tipo de abordagem jornalística, onde os aspectos humanos das celebridades são priorizados. Dá para perceber como a pessoa lida com os problemas mais banais de todos, como buscar os filhos na escola, assistir ao jogo de futebol e como ele dialoga com os amigos.

Sempre tive uma curiosidade gigante para entender como era o dia a dia do Mr. Catra. Sou fã declarado do funkeiro que faz apologia sexo libertino. Acho sua música de uma verdade absoluta em cada verso. E por isso eu tinha esse interesse em saber como era sua rotina. Suas letras eram liberdade criativa artística ou reflexo da verdade que ele vivia? Essa dúvida me acompanhava até o dia em que topei com o documentário 90 dias com Catra de João Paiva no, advinhe onde, Youtube. Se você quer saber quem é o Catra fora do palco, não deixe de assistir esse vídeo. É simplesmente impagável e esclarecedor das condições sociais que colaboram para a formulação de sua lógica de vida. De minha parte, só posso dizer que fiquei mais fã ainda do cara após ver o documentário.

Outros dois filmes que vão nessa linha, abordando o mesmo personagem, mas de forma distinta são Peões de Eduardo Coutinho e Entreatos de João Moreira Salles. As obras tratam do ex-presidente Lula em sua rotina. O primeiro, sob o enfoque dos seus companheiros nas lutas sindicais do ABC paulista na década de 1970. Já o segundo, pega a campanha presidencial de Lula em 2002. Os filmes são importantíssimos para compreender o personagem Lula e suas ligações com as pessoas que estão ao seu redor. Servem para desanuviar uma série de questionamentos que embaralham a cabeça de qualquer um em se tratando de figuras públicas.
Parece que esse filão de abordagem foi descoberto tanto pelas reportagens televisivas quanto pela linguagem cinematográfica. Isso é muito positivo para a humanização das figuras públicas. Quanto mais obras nessa linha, maior a compreensão desses entes que habitam nosso imaginário. Estamos pegando um caminho que particularmente me interessa bastante.

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Todo mundo está contando os mais vendidos

Artigo que publiquei hoje no Diário da Manhã:

Todo mundo está contando os mais vendidos

Pablo Kossa

Não assisti o VMA. Você nem sabe o que é isso? Cara de sorte… Trata-se do Video Music Awards, uma premiação de clipes da MTV norte-americana. O Brasil tem sua filial, o VMB. Mas hoje vamos falar da versão ianque, que rolou no último domingo. Na edição 2011, que só fiquei sabendo da existência depois que rolou (veja você meu interesse por esse mundinho), a Kate Perry levou um monte de prêmios, a Beyoncé anunciou publicamente sua gravidez, a Lady Gaga se vestiu de homem, Adele tocou piano, Amy Winehouse foi homenageada, Britney Spears foi elevada à condição de lenda… Ou seja, nada de interessante e nada que vá mudar o mundo. Agora, o que venho pensando ao ler a repercussão da internet do evento é: onde diabos perdi o bonde da história?

Há alguns anos, eu contava os dias para um evento desse porte. Sabia os indicados por categoria, participava de votações quando eram abertas ao público, encontrava os amigos no dia, preparava tira-gosto e cerveja para assistir a premiação, me divertia com os shows. Hoje… Mal leio a repercussão na internet. Eu mudei, é claro! Estou mais velho, mais chato, mais ranzinza, mais exigente. Mas não fui só eu quem mudei, é claro! O mundo também.

Então na premiação onde antes eu via o Aerosmith passando o rodo com um clipe de uma balada onde mostrava duas ninfetas se insinuando loucamente, hoje tem a Kate Perry com fogos de artifício em seus (belos) seios. Onde antes eu via o Beastie Boys quebrando tudo tocando Sabotage ao vivo na premiação, hoje tem a gordinha insossa Adele e que posa de autêntica por fumar um cigarro (Oh, meu Deus, um cigarro! Só americano mesmo para achar isso polêmico e autêntico) mas que só agrada gente metida a cool como grande show. Onde antes eu via o Neil Young com o Pearl Jam em dueto memorável, hoje tem Lady Gaga vestida de homem (Oh, meu Deus, quanta ousadia!) em dueto constrangedor com Brian May do Queen.

Definitivamente, eu mudei. Mas não tenho dúvidas de que o mundo também mudou muito. E para pior.

Eu não saberia elencar as razões dessa derrocada criativa que a música do mainstream passou. Alguns culparão as novas gerações. Outros, a internet. Poucos dirão que a questão é uma simples entressafra e que o bom momento está logo ali na frente e que já chega. Eu prefiro não arriscar uma hipótese. Eu precisaria de tempo e saco para me aprofundar em algo que não sei se tenho tempo e, principalmente, saco para isso.

Se eles estão preocupados nos mais vendidos, o meu critério de recorte de interesse é outro. Minha preocupação é no legado. Quero identificar e dar atenção àquilo que vai ser perene. Por isso direciono meu tempo dedicado às artes em especial aos clássicos. São obras que já passaram pelo crivo da história e ainda estão aí. Algo de bom elas devem ter, não é mesmo? Enquanto isso, fico esperando a Adele compor sua obra prima para ver se realmente vale ouvir seus lamúrios ao piano.

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